O que é
É a técnica que responde: "a minha curva de capital foi a única possível — ou eu tive sorte no caminho?"
Você pega a série de resultados das suas operações, reordena ou reamostra milhares de vezes e gera milhares de curvas de capital alternativas. Cada uma é um universo paralelo em que as mesmas operações aconteceram em ordem diferente.
O que sai disso é a informação mais útil de todas: a distribuição dos resultados e dos drawdowns possíveis — não um número único, mas a faixa em que a realidade tende a cair.
Como se calcula
Dois métodos, com propósitos diferentes:
- Reshuffling (sem reposição): mantém exatamente as suas operações e só embaralha a ordem. Testa risco de sequência — o que acontece se as perdas tivessem vindo agrupadas.
- Resampling (com reposição): sorteia operações do seu histórico permitindo repetir e omitir. Gera variabilidade maior, simulando amostras que você poderia ter tido.
Procedimento:
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- Colete a série de resultados (em R, de preferência)
- Gere N curvas (N = 5.000 a 10.000) reordenando ou reamostrando
- Para cada curva, registre: resultado final, drawdown máximo, maior streak
- Leia os percentis da distribuição
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Risco de ruína = percentual das simulações em que o capital cruzou um limite crítico definido antes do teste (por exemplo, limite de perda da estratégia ou competição). O limite depende do objetivo e da tolerância a perda; não existe percentual universal.
Como ler o número
O que interessa são os percentis do drawdown, não a média:
- Percentil 50 (mediana): o drawdown típico.
- Percentil 95: o drawdown que você deve estar preparado para viver.
- Percentil 99: o cenário ruim que ainda é plausível.
Exemplo de leitura: backtest mostrou drawdown máximo de 12%. O Monte Carlo revela que 5% dos cenários passaram de 22% e 1% passou de 28%. O drawdown do backtest era o cenário otimista, não o pior caso.
Risco de ruína: compare a probabilidade estimada com a tolerância definida no plano. Mesmo um número pequeno pode ser inaceitável para capital essencial ou restrições rígidas.
Faixas de referência
- O drawdown observado é uma realização, não um limite. A distribuição simulada pode revelar cenários menores ou maiores, condicionados ao modelo e à amostra.
- Se a mediana das simulações é positiva mas o percentil 25 já é negativo, a estratégia depende muito da ordem dos eventos.
- Risco de ruína alto pode vir de tamanho de posição, dependência entre perdas, regime, custos, lógica da estratégia ou amostra insuficiente. Reduza o risco e investigue também o modelo e os dados.
- Em torneio com limite de perda, compare a probabilidade de bater o limite antes do fim com a sua tolerância e objetivo; não há corte universal aplicável a todos.
Parâmetros comuns
- Número de simulações: 5.000 a 10.000.
- Série de entrada: suficiente para representar distribuição, caudas e regimes; documente a incerteza, sem mínimo universal.
- Limite de ruína: definido pelo objetivo, capital e regra da competição.
- Percentis reportados: 5, 25, 50, 75, 95, 99.
Na prática
- Use percentis adversos do drawdown como cenários, sem tratá-los como teto ou garantia. Escolha o percentil conforme a tolerância e as limitações do modelo.
- Simule antes de aumentar o lote. A relação entre lote e risco de ruína é não linear e depende do limite e da distribuição; não há multiplicador universal.
- Rode depois do walk-forward, sobre a série fora da amostra. Walk-forward mede robustez no tempo; Monte Carlo mede risco de sequência. São perguntas diferentes.
- Use na adequação ao limite de perda do torneio. O limite é regra externa; ajuste o lote/estratégia para que a probabilidade estimada seja compatível com o plano.
- Refaça a cada 100 operações novas, com o histórico atualizado.
Quando falha
Fortes:
- Substitui um único número por uma distribuição — muito mais honesto.
- Revela o risco de sequência, que nenhuma métrica agregada mostra.
- Permite dimensionar capital e lote com base em probabilidade, não em esperança.
- Mostra rapidamente quando o problema é tamanho de posição e não estratégia.
Limitações:
- Assume que as operações são independentes. Se a sua estratégia agrupa operações em torno de mudanças de regime, as simulações subestimam o risco real.
- Só reorganiza o passado: não gera eventos que nunca aconteceram no seu histórico.
- Amostra pequena de entrada gera distribuição pouco confiável — lixo entra, lixo sai.
- Não captura mudança estrutural de mercado, mudança de custos, nem mudança sua.
- Rodar com 25 operações e tratar o resultado como probabilidade.
- Ler só a média e ignorar os percentis — a média é justamente o que não te machuca.
- Concluir "o drawdown máximo possível é X%" — o Monte Carlo dá o percentil, não o teto.
- Esquecer que as operações não são independentes na prática, e tratar o número como piso de risco.
- Simular retorno e ignorar o risco de ruína, que é a saída mais importante.
Exemplo
Cenário hipotético, condicionado à série e ao método de reamostragem descritos: Um trader da Arena tem 180 operações reais com expectância de +0,28R, taxa de acerto 44% e maior streak observada de 7 perdas. Ele arrisca 2% por operação e quer entrar num torneio de 30 dias com limite de perda de 20%.
Rodando 10.000 simulações sobre a série dele, com 160 operações projetadas para o período:
| Percentil | Resultado final | Drawdown máximo |
|---|---|---|
| 5 | −11% | 8% |
| 25 | +9% | 12% |
| 50 (mediana) | +24% | 15% |
| 95 | +61% | 29% |
Os percentis das duas colunas são calculados separadamente; uma célula da linha 95 não descreve necessariamente a mesma trajetória simulada da outra célula.
Risco de bater o limite de 20% antes do fim: 31% das simulações.
Ou seja: com o lote atual, quase um em cada três universos possíveis termina com ele desligado do torneio — mesmo tendo uma estratégia lucrativa. A mediana é boa (+24%), mas não serve de nada se ele não chega ao fim.
Ele reduz o risco por operação de 2% para 1,1% e simula de novo: neste cenário, a mediana cai para +13% e o risco de bater o limite cai para 6%. A escolha final depende da tolerância e do objetivo da competição.
